sábado, 9 de abril de 2011

Apenas feliz!


Sinto-me tão feliz apenas porque respiro novos ares e contemplo outros horizontes.
O que vejo, o chão que piso, está longe de ser um lugar seguro e/ou perfeito, mas é onde meu coração se agita, palpita, se mexe, enlouquece! Neste lugar eu tenho prazer!
Sinto-me feliz porque finalmente a liberdade não é mais um sonho, e sim uma realidade que posso tocar com minhas mãos!
Sinto-me feliz porque a cada passo que dou posso enxergar mais longe, em oposição à quando somente meio passo me bastaria a fim de ver mais além, e no entanto, eu não conseguia porque meus pés presos me mantinham numa mesma posição, ou seria em uma mesma situação?
Estou feliz porque já não me encontro mais imobilizada, paralizada, engressada, cristalizada... Um dia acordei suspensa em uma posição mais alta e ela é mais alta do que eu mesma.

terça-feira, 5 de abril de 2011

Esquecimento


“Nós humanos para renascer, temos de esquecer – abandonar a casca velha para que a nova apareça -, as cascas vazias das cigarras presas aos troncos das árvores são um passado subterrâneo que teve de ser abandonado para que o ser voante nascesse. A educação é um processo de sucessivas demãos de tinta sobre o corpo: cascas. O esquecimento e a desaprendizagem são sucessivas raspagens em busca do esquecido (...)
As culturas e os saberes se sedimentam sobre o corpo – e é como se camadas de materiais estranhos lhe fossem acrescentadas: a craca de moluscos que gruda no casco dos barcos, as demãos de tinta com que a superfície vai sendo pintada... Enquanto nos lembramos e sabemos os saberes, o corpo dorme no esquecimento(...)
Álvaro de Campos num lamento, disse que ele era o intervalo entre os desejos dele e aquilo que os desejos dos outros haviam feito dele. Será isso a educação? O processo pelo qual as gerações mais velhas vão jogando as redes de seus desejos, sob a forma de palavras, sobre as gerações mais novas? A educação vai cobrindo nossa pele com sucessivas camadas de tinta. É preciso que a tinta seja raspada para que o corpo ressuscite. Desaprender e esquecer é raspar a tinta. Raspando-se a tinta volta-se ao corpo tal como ele era antes de ser enfeitiçado por palavras.”

Rubem Alves - Variações sobre o prazer p. 55, 56.

terça-feira, 15 de março de 2011

O toque


Talvez eu jamais soubesse o que é dor crônica se eu meu corpo tivesse sido alimentado de amor através de toques...
Para muitas pessoas, inclusive eu, a dor é um alerta que soa quando há dureza demais e carinho de menos em forma de toques na nossa história.
Não quero afirmar que quem é tocado ou toca, não experimentam dor, pois esta faz parte do humano. Entretanto, existem dores que são privações acumuladas, que poderiam perfeitamente ser desfeitas com alguns toques oriundos das mãos do amado.
Dores também podem ser aliviadas e sanadas abrindo nossos porões e colocando os corações em contato. Porque basta colocar dois corações em contato para que eles saibam o que fazer. Dois corações sabem muito bem como se amar.
Coração que desaprendeu o contato é coração encarcerado, que se traduz em corpo pesado, retesado, transbordante de dor...
Conclui que, a fim de que o amor volte a circular em meu corpo, em qualquer corpo, basta um toque, sem prever, sem pensar, para amolecer, relaxar e fazer transbordar espontaneidade...

A tela vazia


Basta uma tela vazia para que surja a inspiração para criar...
Porém, quantas vezes em vez de criar, inventar, é mais fácil repetir?
Quem pode imaginar que inovação é um outro lado da frustração, da insatisfação?
Só quem está insatisfeito e frustrado, cria!
Eu sempre procurava encaixar alguma coisa no espaço que está vazio.
Não me importa o que seja desde que não me mostre a lacuna e o seu tamanho...
Entretanto, ultimamente tenho pensado que talvez o espaço vazio, tenha que permanecer assim como está...
Esta lacuna tem que permanecer vazia a fim de produzir o incomodo que precede toda mudança significativa.
E então da tela vazia brotam dor, perplexidade, assombro...
Hoje, ainda vejo uma tela vazia, mas sinto paz.
A mesma paz que senti quando entendi que nem tudo depende de mim.
Não sou tão poderosa quanto acreditava.
Saber que nem tudo depende de mim me enfraquece, me desempodera, me humilha, mas também liberta!
E enfim destronada, estou livre para viver as alegrias de uma simples mortal.

Paula 11.03.11

terça-feira, 8 de março de 2011

O cisne negro


Sombrio.
Esta é a primeira palavra que vem à minha mente quando penso no filme “O cisne negro” que consagrou Nathalie Portman como melhor atriz no Oscar 2011.
Adoro filmes sombrios e dramáticos como “O cisne negro”!
Nina, é uma menina tão doce, mas para conseguir o que tanto quer na vida, precisa encarar e vivenciar o seu lado sombra.
Encarar seu lado sombra no filme, significa cortar o cordão umbilical e romper com sua mãe, além de experimentar a mulher que adormece seu corpo de menina.
Encarar o seu lado sombra também significa quebrar a redoma de vidro construída em torno de si mesma e flertar com tudo o que é perigoso, com as ameaças de outrora...
O Cisne negro explicita os conflitos que um ser humano experimenta para ser ele mesmo e brilhar... Mostra também que uma relação conturbada com nosso lado sombra pode nos levar à autodestruição. Nosso lado sombra que em muitas vezes gostaríamos tanto de colocar à parte de nós, na verdade é uma parte de nós mesmos que precisa ser aceita e integrada ao nosso eu.
Adoro roupas brancas, coloridas, mas fico impressionada em como o preto me atrai. Só neste ano já comprei duas peças de cor preta. Eu acho que está muito ligado ao meu lado misterioso, introspectivo, introvertido. Para muitas pessoas o preto não simboliza coisa boa... Preto é o que se veste quando perdemos alguém, preto é a “cor do pecado”, é a cor sempre presente nos filmes de terror.
O cisne negro me fez pensar que talvez em nosso lado sombra, em nosso “lado negro” resida aquilo que temos de melhor... Talvez nele residam características essenciais para nosso sucesso que foram obscurecidas pelos nossos conflitos ou esquecidas, embotadas... Mas que nos farão brilhar e satisfazer os desejos latentes de nossos sofridos corações...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Minha lista


Estava revendo o que escrevi no ano passado e encontrei minha lista feita há quase um ano atrás copiada da Anabel, e resolvi atualizá-la...


Eu quero... Fazer as coisas mais devagar e ter uma vida com mais qualidade.
Eu tenho... Muita determinação.
Eu não tenho... Paciência (ai!).
Eu gostaria de ter... Um carro popular para passear bastante.
Eu gostaria de não ter... Que ficar 10 horas por dia num trabalho burocrático.
Eu acho... Tremendamente desagradável pessoas que se acham o umbigo do mundo.
Eu odeio... Omissões e hipocrisia .
Eu sinto saudade... Das brincadeiras de infância na casa da minha avó e dos meus companheiros inseparáveis que hoje não são tão companheiros assim...
Eu faço... Pilates.
Eu não faço... Musculação, nem lipoaspiração.
Eu fiz e não faria de novo... Tentar mudar as pessoas à força.
Eu fazia e deixei de fazer... Ir à igreja como uma beata.
Eu escuto... Música no ônibus cheio para me imaginar num lugar bem melhor...
Eu cheiro... Livro novo, cédulas novas que saem do caixa eletrônico (para desespero do meu marido...).
Eu imploro... Deus, quero tanto ganhar mais e fazer o que realmente gosto...
Eu me pergunto... Por que não sinto desejo de ser mãe, será que sou uma alien?
Eu me arrependo... De não ter vivido com mais qualidade antes...
Eu amo... Meu marido.
Eu sinto dor... Na coluna cervical.
Eu sinto falta... De mais contato com a natureza, de tomar sol, banho de cachoeira , de caminhar em lugares arborizados e respirar ar puro.
Eu sempre... Penso na vida.
Eu não fico... Esperando acontecer, eu faço acontecer!!!
Eu acredito... Na bondade e na misericórdia de Deus.
Eu danço... Zouk.
Eu canto... Quando estou relaxada e feliz.
Eu choro... Quando não consigo me conter e de preferência em espaços privados.
Eu luto... Por uma vida mais prazerosa.
Eu escrevo... Para me manter sã...
Eu ganho... Quando escuto os sinais que meu corpo dá.
Eu perco... Quando sou rígida e inflexível.
Eu nunca... Fui santa (Graças a Deus!).
Eu estou... Num longo processo de mudança.
Eu sou... Uma mulher muito agitada!
Eu fico feliz... Quando sou surpreendida, ou ganho presentes ou andando de bicicleta na Lagoa Rodrigo de Freitas num dia ensolarado.
Eu tenho esperança... De me tornar uma pessoa mais centrada.
Eu deveria... Acreditar mais em mim.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Curandeiro, ó

Gosto muito da Elisa Lucinda, e posto aqui neste blog, uma crônica que ela me mandou para pensar nesta semana. Compartilho então com vocês o Curandeiro.





Curandeiro, ó

Há uns bons anos inclui na minha rotina, a sessões de massagens, geralmente orientais, como complementares de outras iniciativas que visam minha saúde geral. É mesmo fundamental parar e olhar para si, seja por um processo psico-analítico, seja pela pratica de yoga, malhação e, melhor ainda, tudo isso junto. Costuma-se separar, drasticamente , o corpo da mente. Numa festa, conheci uma terapeuta corporal que me disse assim: “agora vou só cuidar da mente, quero abandonar o corpo, estou fazendo psicologia, sabe?” Ora? Então aonde é que fica a mente?Fora do corpo? Ora, esta dicotomia já não atende nossa demanda de um ser integral, cuja psico-somática condição expõe tal conceito à muitas fragilidades. Se uma coisa é mental ou psíquica não significa que ocorra fora de nós, num espaço etéreo lá longe do ser, no inatingível. Penso que uma intimidade sobre nosso corpo e seus acontecimentos é peça fundamental de autoconhecimento. Como já disse aqui, sinto falta de uma cultura ou uma educação reflexiva que nos faça perceber porque estamos ficando tortos, corcundas, encurtados, endurecidos, flácidos, frágeis, estagnados, incapazes de um pulo ou um agachamento simples. Pode ser porque fomos abandonados na infância, mimados talvez ou qualquer outro freudiano motivo, mas a representação corporal geralmente traz noticias importantes de nós. Dores e outros males podem ir do famoso complexo de Édipo a uma simples má postura no trabalho ou os dois ao mesmo tempo. Por tudo isso, aqui agradeço a esses profissionais (os de verdade), que têm sido tão imprescindíveis à nossa vida. Tenho ficado muito impressionada com as descobertas às quais, tal pratica pode nos levar e fiz até um poema para agradecer ao shiatsu, a acumpultura e à sensibilidade de Murilo Reis, este com quem faço minhas semanais sessões. Que, através destes simples versos, leitores que tal “arte” desconheciam despertem para esta qualidade de vida e, os que desta ciência vivem, com responsabilidade e competência, se sintam aqui considerados.

O curandeiro era estudioso, atento ao corpo e suas distintas palavras.

No joelho que doía e não dobrava sem que eu sentisse,

batera seu martelinho de sete pontas querendo espalhar a dor,

almejando desconcentrá-la do ponto.

Passadas as batidas e desfeito o quebranto

o bonito homem de cabelos bem cortados , olhos vivos e antepassados,

escuta o pulso , vê para que lado está correndo o rio

e qual a velocidade de sua correnteza.

Com as mãos e a escuta, ausculta o processo.

Depois, com precisão, destreza e toque de delicadeza,

cravou-lhe na cara da dor uma agulha certeira.

Era assim a coragem do doutor, era de oriental beleza o seu saber.

Com a coreografia das mãos vai deixando

coluna em ordem, harmonia entre ossos, músculos e órgãos,

pescoço devidamente estalado, alongadas e desamontoadas as costelas,

que é como o curandeiro estica o tempo pra mim, para você , para nós, para a terra.

Como energia viva em conserva o moço ensina a fazer da vida reserva,

fonte, poção mágica de um organismo vibrante e em movimento,

e também um templo de respiração e pausa com cada coisa em seu momento.

Das palavras que ele deixa na lira da estrada,

entendi que somos sozinhos mas não estamos sós na manada

É este o meu enredo. Agora, graças a mim e a este curador guerreiro,

sem dor, escrevo no chão dobrando os joelhos.

Indaguei ao homem de sua cura o segredo.

Conhece-te a ti mesmo, ele me disse: não tenha medo.