terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Minha lista


Estava revendo o que escrevi no ano passado e encontrei minha lista feita há quase um ano atrás copiada da Anabel, e resolvi atualizá-la...


Eu quero... Fazer as coisas mais devagar e ter uma vida com mais qualidade.
Eu tenho... Muita determinação.
Eu não tenho... Paciência (ai!).
Eu gostaria de ter... Um carro popular para passear bastante.
Eu gostaria de não ter... Que ficar 10 horas por dia num trabalho burocrático.
Eu acho... Tremendamente desagradável pessoas que se acham o umbigo do mundo.
Eu odeio... Omissões e hipocrisia .
Eu sinto saudade... Das brincadeiras de infância na casa da minha avó e dos meus companheiros inseparáveis que hoje não são tão companheiros assim...
Eu faço... Pilates.
Eu não faço... Musculação, nem lipoaspiração.
Eu fiz e não faria de novo... Tentar mudar as pessoas à força.
Eu fazia e deixei de fazer... Ir à igreja como uma beata.
Eu escuto... Música no ônibus cheio para me imaginar num lugar bem melhor...
Eu cheiro... Livro novo, cédulas novas que saem do caixa eletrônico (para desespero do meu marido...).
Eu imploro... Deus, quero tanto ganhar mais e fazer o que realmente gosto...
Eu me pergunto... Por que não sinto desejo de ser mãe, será que sou uma alien?
Eu me arrependo... De não ter vivido com mais qualidade antes...
Eu amo... Meu marido.
Eu sinto dor... Na coluna cervical.
Eu sinto falta... De mais contato com a natureza, de tomar sol, banho de cachoeira , de caminhar em lugares arborizados e respirar ar puro.
Eu sempre... Penso na vida.
Eu não fico... Esperando acontecer, eu faço acontecer!!!
Eu acredito... Na bondade e na misericórdia de Deus.
Eu danço... Zouk.
Eu canto... Quando estou relaxada e feliz.
Eu choro... Quando não consigo me conter e de preferência em espaços privados.
Eu luto... Por uma vida mais prazerosa.
Eu escrevo... Para me manter sã...
Eu ganho... Quando escuto os sinais que meu corpo dá.
Eu perco... Quando sou rígida e inflexível.
Eu nunca... Fui santa (Graças a Deus!).
Eu estou... Num longo processo de mudança.
Eu sou... Uma mulher muito agitada!
Eu fico feliz... Quando sou surpreendida, ou ganho presentes ou andando de bicicleta na Lagoa Rodrigo de Freitas num dia ensolarado.
Eu tenho esperança... De me tornar uma pessoa mais centrada.
Eu deveria... Acreditar mais em mim.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Curandeiro, ó

Gosto muito da Elisa Lucinda, e posto aqui neste blog, uma crônica que ela me mandou para pensar nesta semana. Compartilho então com vocês o Curandeiro.





Curandeiro, ó

Há uns bons anos inclui na minha rotina, a sessões de massagens, geralmente orientais, como complementares de outras iniciativas que visam minha saúde geral. É mesmo fundamental parar e olhar para si, seja por um processo psico-analítico, seja pela pratica de yoga, malhação e, melhor ainda, tudo isso junto. Costuma-se separar, drasticamente , o corpo da mente. Numa festa, conheci uma terapeuta corporal que me disse assim: “agora vou só cuidar da mente, quero abandonar o corpo, estou fazendo psicologia, sabe?” Ora? Então aonde é que fica a mente?Fora do corpo? Ora, esta dicotomia já não atende nossa demanda de um ser integral, cuja psico-somática condição expõe tal conceito à muitas fragilidades. Se uma coisa é mental ou psíquica não significa que ocorra fora de nós, num espaço etéreo lá longe do ser, no inatingível. Penso que uma intimidade sobre nosso corpo e seus acontecimentos é peça fundamental de autoconhecimento. Como já disse aqui, sinto falta de uma cultura ou uma educação reflexiva que nos faça perceber porque estamos ficando tortos, corcundas, encurtados, endurecidos, flácidos, frágeis, estagnados, incapazes de um pulo ou um agachamento simples. Pode ser porque fomos abandonados na infância, mimados talvez ou qualquer outro freudiano motivo, mas a representação corporal geralmente traz noticias importantes de nós. Dores e outros males podem ir do famoso complexo de Édipo a uma simples má postura no trabalho ou os dois ao mesmo tempo. Por tudo isso, aqui agradeço a esses profissionais (os de verdade), que têm sido tão imprescindíveis à nossa vida. Tenho ficado muito impressionada com as descobertas às quais, tal pratica pode nos levar e fiz até um poema para agradecer ao shiatsu, a acumpultura e à sensibilidade de Murilo Reis, este com quem faço minhas semanais sessões. Que, através destes simples versos, leitores que tal “arte” desconheciam despertem para esta qualidade de vida e, os que desta ciência vivem, com responsabilidade e competência, se sintam aqui considerados.

O curandeiro era estudioso, atento ao corpo e suas distintas palavras.

No joelho que doía e não dobrava sem que eu sentisse,

batera seu martelinho de sete pontas querendo espalhar a dor,

almejando desconcentrá-la do ponto.

Passadas as batidas e desfeito o quebranto

o bonito homem de cabelos bem cortados , olhos vivos e antepassados,

escuta o pulso , vê para que lado está correndo o rio

e qual a velocidade de sua correnteza.

Com as mãos e a escuta, ausculta o processo.

Depois, com precisão, destreza e toque de delicadeza,

cravou-lhe na cara da dor uma agulha certeira.

Era assim a coragem do doutor, era de oriental beleza o seu saber.

Com a coreografia das mãos vai deixando

coluna em ordem, harmonia entre ossos, músculos e órgãos,

pescoço devidamente estalado, alongadas e desamontoadas as costelas,

que é como o curandeiro estica o tempo pra mim, para você , para nós, para a terra.

Como energia viva em conserva o moço ensina a fazer da vida reserva,

fonte, poção mágica de um organismo vibrante e em movimento,

e também um templo de respiração e pausa com cada coisa em seu momento.

Das palavras que ele deixa na lira da estrada,

entendi que somos sozinhos mas não estamos sós na manada

É este o meu enredo. Agora, graças a mim e a este curador guerreiro,

sem dor, escrevo no chão dobrando os joelhos.

Indaguei ao homem de sua cura o segredo.

Conhece-te a ti mesmo, ele me disse: não tenha medo.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Adeus 2010! Seja bem vindo 2011!!!

Sendo quem sou, não poderia deixar o ano partir sem meditar, sem fazer minha retrospectiva pessoal, sem refletir no que 2010 significou para mim...
Sei que por mais que eu escreva as palavras não dão conta das transformações pelas quais passei neste ano.
Em 2010 eu acordei e me posicionei, isto quer dizer que eu ousei me arriscar, a sair da minha zona de conforto mental... Por ter tomado esta atitude, aqueles sentimentos fortes que eu reprimia explodiram com força total. Com esta atitude, eles que atuavam no subterrâneo da minha mente foram convidados a dar as caras, embora vivendo tudo isso, meus medos não me impediram de seguir em frente. Aprendi que crescer não é apenas dominar o medo e a insegurança e sim desafiá-los.
Já basta de falar daquilo que não tenho, que ainda não vivo, como se falar por si só invocasse o objeto de desejo. Mais do que falar, é preciso agir, é preciso mudar, eu me tornei consciente desta verdade.
Este foi um ano em que tive coragem e mais consciência, aprendi que estas duas virtudes nunca andam separadas... Tive que ver coisas que não queria ver, e sentir o que não queria sentir. Através da minha busca foram reveladas minhas fortes características narcisistas, meu egoísmo, minha baixa tolerância à frustração e o medo de errar como razão da minha improdutividade. Além disso, percebi um ego frágil debaixo da minha máscara de perfeição, e também fortes desejos de impressionar os outros.
Neste ano fui capaz de suportar muitas dores, entre elas as dores do crescimento, mergulhando naqueles conflitos que parecem intermináveis. Nos sonhos, meu inconsciente apontava a necessidade de assumir a responsabilidade de arrumar meu mundo interior e resolver meus conflitos fundamentais, pois, eu ainda mantinha uma atitude passiva com relação às minhas crises. Então, por essas e outras tive que mergulhar também em minha dor psicossomática: A dor na cervical. Sua onipresença me obrigou a entender sua função e sua obstinação. Enxerguei uma outra possibilidade de lidar com ela, passei a aceitá-la e percebi que eu estava recriando uma dinâmica destrutiva vivida na minha infância. Minha dor também significava era uma ferida de guerra, da luta que eu vinha travando pela minha própria sobrevivência, pois ninguém passa incólume por uma guerra, sem adquirir uma ferida ou cicatriz. Além disso, entendi esta minha dor como uma mensagem que eu mandava para mim mesma implorando para que eu mudasse. E para a minha felicidade algo dentro de mim mudou...
Sempre vi em na literatura ou em filmes, pilotos de aviões ou comandantes de navios que quando entravam em alguma tempestade ou turbulência solicitavam à tripulação para se livrar dos pesos inúteis, daquela bagagem que antes essencial, se tornara um peso que dificultava a manutenção da estabilidade dos meios de locomoção. Lançar fora os pesos nos filmes era um procedimento essencial para manter a vida de todos a salvo e a integridade da embarcação ou do aeroplano para enfim dar prosseguimento a viagem. Posso dizer que neste ano joguei muitos pesos fora para ter uma viagem mais leve e mais tranqüila mesmo enfrentando turbulências. Entendi que as turbulências, tempestades são inevitáveis, mas que os pesos podem ser descartáveis.
Posso também dizer que, depois de tanto tempo falando e desejando o novo em minha vida, neste ano me preparei para ele. Entendi que só podemos receber o novo depois de deixar o que é velho, e por isso me sinto preparada para tudo que a vida tem para me oferecer neste ano que se aproxima. O lugar onde assisto tornou-se pequeno demais para mim, minha alma clama por uma oportunidade de realização. Este desejo da minha alma me consome e é este que tem me orientado até então. Consumida por este desejo só penso nesta nova Paula que está prestes a nascer. Clamo a Deus que substitua meu lamento por festa.
Por tudo isso, fica claro que os desafios continuam, pois ainda há muito o que se fazer, há ainda muita coisa debaixo do tapete. Não obstante, é urgente e necessário aprender a confiar e a compartilhar.

Paula

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Emergentes entre o sonho realizado e a frustração

Depois da compra de bens, a classe C agora almeja a inclusão social, que passa pela escolha da profissãoEla é a grande novidade no cenário econômico e demográfico do país: já é maior fatia da população, pode decidir uma eleição sozinha, responde por quase metade do consumo nacional e compra eletrônicos, carro e até a casa própria. Mas ao mesmo tempo em que festeja esse boom de consumo, a nova classe média brasileira ainda sonha com a inclusão social, um bem que não é vendido no shopping e tem que ser adquirido aos poucos, num prazo ainda maior que o dos financiamentos de mercado. Esta é a principal conclusão da pesquisa “Sonhos da Nova Classe Média”, um estudo qualitativo realizado em São Paulo com pessoas que ganham entre R$ 1.126 a R$ 4.854 por mês.
— Não adianta ter dinheiro para freqüentar o Leblon ou o Jardins, em São Paulo, porque o linguajar é diferente, ele não estudou numa boa escola. Foram 500 anos de um país dividido entre a casa grande e a senzala — diz Andre Toretta, publicitário e sócio-diretor da Ponte Estratégia, consultoria especializada em estudos sobre a classe C.
A pesquisa incluiu o convívio com os entrevistados e identificou duas outras grandes categorias de sonhos: o da realização pessoal e o de consumo.Os sonhos de realização pessoal estão ligados fundamentalmente à profissão. Mas, ao mesmo tempo em que avança o acesso aos cursos de nível superior, ainda é um privilégio escolher a profissão.— Esse universitário da classe C primeiro vê qual universidade tem perto de casa, depois quanto custa e, por último, ele olha que curso tem. Ele não faz o curso que quer, faz o que é possível — diz Torreta.Que o diga a auxiliar financeira Elizabeth Mendonça Costa, 32 anos, que sonhava ser fisioterapeuta, mas acabou se matriculando em ciências contábeis.
— A faculdade de fisioterapia custava R$ 1.150 por mês e a de ciências contábeis, R$ 475. Não adiantava optar pelo sonho e não conseguir manter — diz ela, enquanto festeja outras conquistas, como a TV de 50 polegadas, o laptop e a geladeira que serve cerveja sem abrir a porta.De sua ainda extensa lista de sonhos, Elizabeth destaca a formatura e o fim do que ela chama de “discriminação”: — Infelizmente, na nossa sociedade há muita discriminação, principalmente do pobre contra outro pobre. Fui com meu irmão comprar o carro e o vendedor nem me deu atenção. Chamei um outro e falei logo: a gente vai comprar um carro zero. Aí o primeiro vendedor disse que ele estava me atendendo, mas eu não quis mais comprar com ele.Isso é pior do que racismo.O economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Estudos Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), vê nas conclusões da pesquisa um reflexo da desigualdade.
— Esse sonho de inclusão social é um sonho de pertencer.O país gerou um potencial de consumo, de geração de renda, mas temos problemas relacionais, porque temos desigualdade, inclusive dentro de um mesmo grupo.Neri explica que a nova classe média é heterogênea e, nas pontas, inclui a renda média da Bélgica e da Índia. Por isso, diz, o desafio é agora é avançar nas questões coletivas.
— A gente já deu os pobres ao mercado. Agora falta dar maneiras de as pessoas alavancarem seus sonhos.

Nice de Paula
Jornal O Globo 10/10/2010 - Economia

Me deparei com este texto num Concurso, a sensação foi de ter me olhado no espelho!
Espero que em 2011 eu e todos que me lêem tenham seus sonhos realizados.
Paula
Paula

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Divagando...


Nascemos dentro da coletividade, mas na verdade estamos sozinhos...
Às vezes o limite entre a sanidade e a loucura estará na forma como administramos esta solidão tão pessoal e intransferível.
Quem muda não muda apenas para si mesmo.
Diferenciar-se é um preço alto que se paga,
Porque se tornar diferente é denunciar as tramas ocultas nas quais estamos envolvidos.
Os orientais gostam de pensar que toda crise é uma oportunidade.
Oportunidade esta que devemos saber aproveitar,
Pois é esta visão que definirá se uma crise é um evento passageiro,
Ou se ela se tornará crônica a ponto de paralisar a vida.
Não vou mentir, minhas sombras ainda me assustam.
Delas ainda me defendo,
Delas ainda fujo...
Porém, também sinto por elas uma atração irresistível.
Minhas sombras são insistentes, sedutoras me instigam batendo à minha porta,
E vão se impondo através de meus sonhos.
Na verdade, a mensagem que elas trazem é de reconciliação.
E reconciliação traz paz.
Esta forma fragmentada de viver é a origem de muitos dos nossos conflitos.
Por isso, às vezes não entendo porque resistimos às mensagens de paz que nos envia a alma.
Talvez seja porque não sabemos agir de forma diferente de tudo que nos foi ensinado.
Muitas vezes, até se tenta ser diferente, mas é como estar numa piscina e só molhar os pés.
Não somos o que acreditamos ser.
Não sou o que eu acredito ser.
Para saber realmente quem sou é preciso interpretar as pistas,
Como acontece em uma investigação policial.
Em nosso cotidiano, nas coisas que acreditamos serem tão banais,
Estão os motivos de ser quem somos e agir como agimos.
Tudo está aqui bem debaixo do nosso nariz, basta saber interpretar as pistas.
Na verdade, tudo é bem mais simples do que imaginamos,
Contudo, nossos olhos sempre estão embaçados demais por nossas fantasias para que possamos ver.
Ao contrário de uma investigação policial, a autodescoberta não tem como objetivo encontrar um culpado para nossa desventura, e então condená-lo, encarcerá-lo como muitas vezes gostaríamos de fazer.
O objetivo desta viagem é encontrar e libertar quem culpamos,
julgamos, condenamos e aprisionamos.
Talvez estes fragmentos do meu ser que aprisiono com tanta veemência e que julgo como desprezíveis, vulgares, idiotas, sejam afetos que ressignificados possam reorientar minha vida e me levar a lugares que jamais imaginei chegar...
Entretanto, viver assim tem sido uma luta.

Paula 24.11.10

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

A gula


Só de pensar, minha boca se encheu d’água. Me vi comendo um bombom suíço, bem devagarzinho – aquele chocolate macio, recheado de licor, uma cereja vermelha dentro. Quantos prazeres se encontram num único bombom! É preciso ir devagar como em tudo que tem a ver com prazer. É grosseria enfiar o bombom inteiro na boca e comê-lo como porco. Primeiro é o prazer de tirar-lhe a roupa. A carne mulata vai se mostrando aos poucos, sugerindo... Depois vem o perfume, que atiça as glândulas salivares a secretarem seus sucos. A seguir, as delícias do gosto. Os dentes entram carinhosamente na carne macia que vão se abrindo, a ponta da língua testando a cereja guardada na concavidade escura cheia de licor. Mais uma mordidinha e o licor escorre, e a língua tem que trabalhar depressa para não perder nada... O gosto deve ficar rodando na boca, movido pela língua, misturando-se com nossos fluidos, excitando as papilas gustativas. Mas, depois de algumas rodada, o prazer do gosto pede uma realização maior. O gosto não é o bastante. Fosse bastante, bastaria cuspir o bombom depois de esgotados os prazeres do gosto e não haveria o perigo de engordar. Mas não. O prazer do gosto exige um outro para se sentir completo – é preciso engolir. O bombom, transformado numa pasta líquida, abandona a boca, lugar do gosto, e vai escorregando, deslizando, penetrando o esôfago até descansar no estômago. Esse prazer nada tem a ver com o gosto. É puramente tátil, o prazer da plenitude – o bombom penetra, enche a gente.
Ah! Que coisa refinada e deliciosa, especialmente agora que os bombons suíços me foram proibidos por causa da diabetes. O que provavelmente, não é o seu caso. Sem sofrer de diabetes, você pode se entregar, ainda que por breves momentos, aos prazeres da gula. A gula é um demônio saboroso, o que a torna especialmente perigosa. Eu, diabético, posso ser tentado. Mas não caio na tentação. A gula jamais me pegará. Quero viver. Muitas virtudes nada mais não que transformações de nossos medos.
A psicanálise reconhece uma curiosa dança dos prazeres – eles são capazes de abandonar seus locais de origem e se alojar num outro, que não é naturalmente seu. Fiquei a pensar se a gula não é um desses casos, um deslocamento dos prazeres sexuais para a boca. Porque no prazer sexual acontece assim mesmo: não bastam os prazeres vestibulares, é preciso penetrar. Serão boca, esôfago e estômago substitutos para os órgãos sexuais femininos?
Uma coisa é certa: é mais fácil ter prazer com a boca que ter prazer sexual. Os prazeres da gula estão sob controle de atos voluntários. Minha vontade domina todas as partes do ato de comer. Mas os prazeres sexuais são mais complicados. Aí a decisão cerebral não manda. Não acontece de você ter o bombom, querer comê-lo e não conseguir. Com sexo acontece. Que frustração! Que fome! Os prazeres do sexo podem levar à gravidez. Os prazeres da gula levam inevitavelmente à obesidade. A obesidade é uma gravidez sem esperança, que nunca vai parir, vai só crescer.
Prazer precisa de intermitência. Como no sexo. Depois do orgasmo, o corpo está satisfeito. É preciso esperar um tempo para que ele queira de novo. O prazer continuado deixa de ser prazer, transforma-se em dor. Pois é isso que o demônio da gula faz com quem se entrega a ela. Tudo começa com o prazer do bombom. Depois de muitos bombons, o corpo já não come mais pelo prazer dos bombons. O prazer já não está no gosto. Está no engolir.
O obeso não quer ser obeso. Tudo é complicado para ele – passar na borboleto do ônibus, sentar na poltrona do avião, amarrar os sapatos, comprar roupas, transar. Não gosta de se ver no espelho. Não gosta do jeito como os outros o olham. Sabe que a obesidade é feia, que faz mal à saúde, causa infarto, pressão alto, diabetes. Quer ser magro, elegante, bonito. Sabe que para ficar magro é preciso parar de comer.
Mas, lá pelas duas horas da madrugada, hora de solidão (os demônios amam as horas de solidão!), o demônio lhe fala sobre os bombons... Ele não está com fome. É o demônio que suplica, com voz chorosa: “Estou com vontade de comer uns bombons...”
Porém não há bombons no apartamento. Ele comeu todos enquanto via televisão. Pensa em se vestir e ir ao supermercado. Mas faz frio. Lembra-se então de que na cozinha há bolachas e leite condensado. Vai até aa cozinha, abre uma lata de leite condensado, lambuza as bolachas e vai devorando, enquanto o leite escorre pelos dedos. Mas ele não permite que o doce se perca – lambe os dedos, enfiando-os um a um na boca. Pena que os dedos não possam ser comidos... Ele não faz mais distinção entre bombons suíços e leite condensado com bolachas. Quem se entrega ao demônio da gula perde a capacidade de degustar. O prazer de degustar é substituído pelo prazer de se empanturrar.
Terminada a orgia da gula, alguns, como ato de penitência, se ajoelham contritamente diante do altar – a privada. Enfiam então o dedo na goela e vomitam o que comeram. É seu jeito de pedir perdão.



Rubem Alves
Sobre Demônios e Pecados

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

SILÊNCIO


O silêncio é o espaço onde as palavras nascem e começam a se mover.
Por vezes, as palavras porque as dizemos.
Dependem de nossa vontade de pensar, de falar, de escrever: pássaros engaiolados.
Mas no silêncio ocorre uma metamorfose.
As palavras se tornam selvagens, livres.
Elas tomam a iniciativa.
E só nos resta ver e ouvir.
Elas vêm como emissárias de um outro mundo,
Um mundo que não havíamos visitado antes.
Não, talvez o tenhamos visitado.
Talvez tenhamos nascido nele.
Mas foi esquecido quando o brilho dos reflexos nos fez esquecer nossas origens.
Cada poema é um testemunho desse mundo perdido.

Rubem Alves
Do universo à jabuticaba