Sendo quem sou, não poderia deixar o ano partir sem meditar, sem fazer minha retrospectiva pessoal, sem refletir no que 2010 significou para mim...
Sei que por mais que eu escreva as palavras não dão conta das transformações pelas quais passei neste ano.
Em 2010 eu acordei e me posicionei, isto quer dizer que eu ousei me arriscar, a sair da minha zona de conforto mental... Por ter tomado esta atitude, aqueles sentimentos fortes que eu reprimia explodiram com força total. Com esta atitude, eles que atuavam no subterrâneo da minha mente foram convidados a dar as caras, embora vivendo tudo isso, meus medos não me impediram de seguir em frente. Aprendi que crescer não é apenas dominar o medo e a insegurança e sim desafiá-los.
Já basta de falar daquilo que não tenho, que ainda não vivo, como se falar por si só invocasse o objeto de desejo. Mais do que falar, é preciso agir, é preciso mudar, eu me tornei consciente desta verdade.
Este foi um ano em que tive coragem e mais consciência, aprendi que estas duas virtudes nunca andam separadas... Tive que ver coisas que não queria ver, e sentir o que não queria sentir. Através da minha busca foram reveladas minhas fortes características narcisistas, meu egoísmo, minha baixa tolerância à frustração e o medo de errar como razão da minha improdutividade. Além disso, percebi um ego frágil debaixo da minha máscara de perfeição, e também fortes desejos de impressionar os outros.
Neste ano fui capaz de suportar muitas dores, entre elas as dores do crescimento, mergulhando naqueles conflitos que parecem intermináveis. Nos sonhos, meu inconsciente apontava a necessidade de assumir a responsabilidade de arrumar meu mundo interior e resolver meus conflitos fundamentais, pois, eu ainda mantinha uma atitude passiva com relação às minhas crises. Então, por essas e outras tive que mergulhar também em minha dor psicossomática: A dor na cervical. Sua onipresença me obrigou a entender sua função e sua obstinação. Enxerguei uma outra possibilidade de lidar com ela, passei a aceitá-la e percebi que eu estava recriando uma dinâmica destrutiva vivida na minha infância. Minha dor também significava era uma ferida de guerra, da luta que eu vinha travando pela minha própria sobrevivência, pois ninguém passa incólume por uma guerra, sem adquirir uma ferida ou cicatriz. Além disso, entendi esta minha dor como uma mensagem que eu mandava para mim mesma implorando para que eu mudasse. E para a minha felicidade algo dentro de mim mudou...
Sempre vi em na literatura ou em filmes, pilotos de aviões ou comandantes de navios que quando entravam em alguma tempestade ou turbulência solicitavam à tripulação para se livrar dos pesos inúteis, daquela bagagem que antes essencial, se tornara um peso que dificultava a manutenção da estabilidade dos meios de locomoção. Lançar fora os pesos nos filmes era um procedimento essencial para manter a vida de todos a salvo e a integridade da embarcação ou do aeroplano para enfim dar prosseguimento a viagem. Posso dizer que neste ano joguei muitos pesos fora para ter uma viagem mais leve e mais tranqüila mesmo enfrentando turbulências. Entendi que as turbulências, tempestades são inevitáveis, mas que os pesos podem ser descartáveis.
Posso também dizer que, depois de tanto tempo falando e desejando o novo em minha vida, neste ano me preparei para ele. Entendi que só podemos receber o novo depois de deixar o que é velho, e por isso me sinto preparada para tudo que a vida tem para me oferecer neste ano que se aproxima. O lugar onde assisto tornou-se pequeno demais para mim, minha alma clama por uma oportunidade de realização. Este desejo da minha alma me consome e é este que tem me orientado até então. Consumida por este desejo só penso nesta nova Paula que está prestes a nascer. Clamo a Deus que substitua meu lamento por festa.
Por tudo isso, fica claro que os desafios continuam, pois ainda há muito o que se fazer, há ainda muita coisa debaixo do tapete. Não obstante, é urgente e necessário aprender a confiar e a compartilhar.
Paula
Seja Bem Vindo ao Blog Transgredindo a Ordem!!!
Este espaço foi criado porque sou um ser social e não há sentido na expressão que não é compartilhada para agraciar as pessoas seja pela identificação, seja pela orientação, pela inspiração ou pela contemplação.
Sou uma pessoa que escreve porque sente antes mesmo de pensar, e através da escrita procura elaborar suas experiências humanas com toda intensidade que ser humano exige... Sentir, dar-me conta do que sinto e expressar por si só é bem mais do que apenas sobreviver!!!
Sou uma pessoa que escreve porque sente antes mesmo de pensar, e através da escrita procura elaborar suas experiências humanas com toda intensidade que ser humano exige... Sentir, dar-me conta do que sinto e expressar por si só é bem mais do que apenas sobreviver!!!
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
quinta-feira, 23 de dezembro de 2010
Emergentes entre o sonho realizado e a frustração
Depois da compra de bens, a classe C agora almeja a inclusão social, que passa pela escolha da profissãoEla é a grande novidade no cenário econômico e demográfico do país: já é maior fatia da população, pode decidir uma eleição sozinha, responde por quase metade do consumo nacional e compra eletrônicos, carro e até a casa própria. Mas ao mesmo tempo em que festeja esse boom de consumo, a nova classe média brasileira ainda sonha com a inclusão social, um bem que não é vendido no shopping e tem que ser adquirido aos poucos, num prazo ainda maior que o dos financiamentos de mercado. Esta é a principal conclusão da pesquisa “Sonhos da Nova Classe Média”, um estudo qualitativo realizado em São Paulo com pessoas que ganham entre R$ 1.126 a R$ 4.854 por mês.
— Não adianta ter dinheiro para freqüentar o Leblon ou o Jardins, em São Paulo, porque o linguajar é diferente, ele não estudou numa boa escola. Foram 500 anos de um país dividido entre a casa grande e a senzala — diz Andre Toretta, publicitário e sócio-diretor da Ponte Estratégia, consultoria especializada em estudos sobre a classe C.
A pesquisa incluiu o convívio com os entrevistados e identificou duas outras grandes categorias de sonhos: o da realização pessoal e o de consumo.Os sonhos de realização pessoal estão ligados fundamentalmente à profissão. Mas, ao mesmo tempo em que avança o acesso aos cursos de nível superior, ainda é um privilégio escolher a profissão.— Esse universitário da classe C primeiro vê qual universidade tem perto de casa, depois quanto custa e, por último, ele olha que curso tem. Ele não faz o curso que quer, faz o que é possível — diz Torreta.Que o diga a auxiliar financeira Elizabeth Mendonça Costa, 32 anos, que sonhava ser fisioterapeuta, mas acabou se matriculando em ciências contábeis.
— A faculdade de fisioterapia custava R$ 1.150 por mês e a de ciências contábeis, R$ 475. Não adiantava optar pelo sonho e não conseguir manter — diz ela, enquanto festeja outras conquistas, como a TV de 50 polegadas, o laptop e a geladeira que serve cerveja sem abrir a porta.De sua ainda extensa lista de sonhos, Elizabeth destaca a formatura e o fim do que ela chama de “discriminação”: — Infelizmente, na nossa sociedade há muita discriminação, principalmente do pobre contra outro pobre. Fui com meu irmão comprar o carro e o vendedor nem me deu atenção. Chamei um outro e falei logo: a gente vai comprar um carro zero. Aí o primeiro vendedor disse que ele estava me atendendo, mas eu não quis mais comprar com ele.Isso é pior do que racismo.O economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Estudos Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), vê nas conclusões da pesquisa um reflexo da desigualdade.
— Esse sonho de inclusão social é um sonho de pertencer.O país gerou um potencial de consumo, de geração de renda, mas temos problemas relacionais, porque temos desigualdade, inclusive dentro de um mesmo grupo.Neri explica que a nova classe média é heterogênea e, nas pontas, inclui a renda média da Bélgica e da Índia. Por isso, diz, o desafio é agora é avançar nas questões coletivas.
— A gente já deu os pobres ao mercado. Agora falta dar maneiras de as pessoas alavancarem seus sonhos.
Nice de Paula
Jornal O Globo 10/10/2010 - Economia
Me deparei com este texto num Concurso, a sensação foi de ter me olhado no espelho!
Espero que em 2011 eu e todos que me lêem tenham seus sonhos realizados.
Paula
Paula
— Não adianta ter dinheiro para freqüentar o Leblon ou o Jardins, em São Paulo, porque o linguajar é diferente, ele não estudou numa boa escola. Foram 500 anos de um país dividido entre a casa grande e a senzala — diz Andre Toretta, publicitário e sócio-diretor da Ponte Estratégia, consultoria especializada em estudos sobre a classe C.
A pesquisa incluiu o convívio com os entrevistados e identificou duas outras grandes categorias de sonhos: o da realização pessoal e o de consumo.Os sonhos de realização pessoal estão ligados fundamentalmente à profissão. Mas, ao mesmo tempo em que avança o acesso aos cursos de nível superior, ainda é um privilégio escolher a profissão.— Esse universitário da classe C primeiro vê qual universidade tem perto de casa, depois quanto custa e, por último, ele olha que curso tem. Ele não faz o curso que quer, faz o que é possível — diz Torreta.Que o diga a auxiliar financeira Elizabeth Mendonça Costa, 32 anos, que sonhava ser fisioterapeuta, mas acabou se matriculando em ciências contábeis.
— A faculdade de fisioterapia custava R$ 1.150 por mês e a de ciências contábeis, R$ 475. Não adiantava optar pelo sonho e não conseguir manter — diz ela, enquanto festeja outras conquistas, como a TV de 50 polegadas, o laptop e a geladeira que serve cerveja sem abrir a porta.De sua ainda extensa lista de sonhos, Elizabeth destaca a formatura e o fim do que ela chama de “discriminação”: — Infelizmente, na nossa sociedade há muita discriminação, principalmente do pobre contra outro pobre. Fui com meu irmão comprar o carro e o vendedor nem me deu atenção. Chamei um outro e falei logo: a gente vai comprar um carro zero. Aí o primeiro vendedor disse que ele estava me atendendo, mas eu não quis mais comprar com ele.Isso é pior do que racismo.O economista Marcelo Neri, chefe do Centro de Estudos Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV), vê nas conclusões da pesquisa um reflexo da desigualdade.
— Esse sonho de inclusão social é um sonho de pertencer.O país gerou um potencial de consumo, de geração de renda, mas temos problemas relacionais, porque temos desigualdade, inclusive dentro de um mesmo grupo.Neri explica que a nova classe média é heterogênea e, nas pontas, inclui a renda média da Bélgica e da Índia. Por isso, diz, o desafio é agora é avançar nas questões coletivas.
— A gente já deu os pobres ao mercado. Agora falta dar maneiras de as pessoas alavancarem seus sonhos.
Nice de Paula
Jornal O Globo 10/10/2010 - Economia
Me deparei com este texto num Concurso, a sensação foi de ter me olhado no espelho!
Espero que em 2011 eu e todos que me lêem tenham seus sonhos realizados.
Paula
Paula
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
Divagando...

Nascemos dentro da coletividade, mas na verdade estamos sozinhos...
Às vezes o limite entre a sanidade e a loucura estará na forma como administramos esta solidão tão pessoal e intransferível.
Quem muda não muda apenas para si mesmo.
Diferenciar-se é um preço alto que se paga,
Porque se tornar diferente é denunciar as tramas ocultas nas quais estamos envolvidos.
Os orientais gostam de pensar que toda crise é uma oportunidade.
Oportunidade esta que devemos saber aproveitar,
Pois é esta visão que definirá se uma crise é um evento passageiro,
Ou se ela se tornará crônica a ponto de paralisar a vida.
Não vou mentir, minhas sombras ainda me assustam.
Delas ainda me defendo,
Delas ainda fujo...
Porém, também sinto por elas uma atração irresistível.
Minhas sombras são insistentes, sedutoras me instigam batendo à minha porta,
E vão se impondo através de meus sonhos.
Na verdade, a mensagem que elas trazem é de reconciliação.
E reconciliação traz paz.
Esta forma fragmentada de viver é a origem de muitos dos nossos conflitos.
Por isso, às vezes não entendo porque resistimos às mensagens de paz que nos envia a alma.
Talvez seja porque não sabemos agir de forma diferente de tudo que nos foi ensinado.
Muitas vezes, até se tenta ser diferente, mas é como estar numa piscina e só molhar os pés.
Não somos o que acreditamos ser.
Não sou o que eu acredito ser.
Para saber realmente quem sou é preciso interpretar as pistas,
Como acontece em uma investigação policial.
Em nosso cotidiano, nas coisas que acreditamos serem tão banais,
Estão os motivos de ser quem somos e agir como agimos.
Tudo está aqui bem debaixo do nosso nariz, basta saber interpretar as pistas.
Na verdade, tudo é bem mais simples do que imaginamos,
Contudo, nossos olhos sempre estão embaçados demais por nossas fantasias para que possamos ver.
Ao contrário de uma investigação policial, a autodescoberta não tem como objetivo encontrar um culpado para nossa desventura, e então condená-lo, encarcerá-lo como muitas vezes gostaríamos de fazer.
O objetivo desta viagem é encontrar e libertar quem culpamos,
julgamos, condenamos e aprisionamos.
Talvez estes fragmentos do meu ser que aprisiono com tanta veemência e que julgo como desprezíveis, vulgares, idiotas, sejam afetos que ressignificados possam reorientar minha vida e me levar a lugares que jamais imaginei chegar...
Entretanto, viver assim tem sido uma luta.
Paula 24.11.10
Às vezes o limite entre a sanidade e a loucura estará na forma como administramos esta solidão tão pessoal e intransferível.
Quem muda não muda apenas para si mesmo.
Diferenciar-se é um preço alto que se paga,
Porque se tornar diferente é denunciar as tramas ocultas nas quais estamos envolvidos.
Os orientais gostam de pensar que toda crise é uma oportunidade.
Oportunidade esta que devemos saber aproveitar,
Pois é esta visão que definirá se uma crise é um evento passageiro,
Ou se ela se tornará crônica a ponto de paralisar a vida.
Não vou mentir, minhas sombras ainda me assustam.
Delas ainda me defendo,
Delas ainda fujo...
Porém, também sinto por elas uma atração irresistível.
Minhas sombras são insistentes, sedutoras me instigam batendo à minha porta,
E vão se impondo através de meus sonhos.
Na verdade, a mensagem que elas trazem é de reconciliação.
E reconciliação traz paz.
Esta forma fragmentada de viver é a origem de muitos dos nossos conflitos.
Por isso, às vezes não entendo porque resistimos às mensagens de paz que nos envia a alma.
Talvez seja porque não sabemos agir de forma diferente de tudo que nos foi ensinado.
Muitas vezes, até se tenta ser diferente, mas é como estar numa piscina e só molhar os pés.
Não somos o que acreditamos ser.
Não sou o que eu acredito ser.
Para saber realmente quem sou é preciso interpretar as pistas,
Como acontece em uma investigação policial.
Em nosso cotidiano, nas coisas que acreditamos serem tão banais,
Estão os motivos de ser quem somos e agir como agimos.
Tudo está aqui bem debaixo do nosso nariz, basta saber interpretar as pistas.
Na verdade, tudo é bem mais simples do que imaginamos,
Contudo, nossos olhos sempre estão embaçados demais por nossas fantasias para que possamos ver.
Ao contrário de uma investigação policial, a autodescoberta não tem como objetivo encontrar um culpado para nossa desventura, e então condená-lo, encarcerá-lo como muitas vezes gostaríamos de fazer.
O objetivo desta viagem é encontrar e libertar quem culpamos,
julgamos, condenamos e aprisionamos.
Talvez estes fragmentos do meu ser que aprisiono com tanta veemência e que julgo como desprezíveis, vulgares, idiotas, sejam afetos que ressignificados possam reorientar minha vida e me levar a lugares que jamais imaginei chegar...
Entretanto, viver assim tem sido uma luta.
Paula 24.11.10
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
A gula

Só de pensar, minha boca se encheu d’água. Me vi comendo um bombom suíço, bem devagarzinho – aquele chocolate macio, recheado de licor, uma cereja vermelha dentro. Quantos prazeres se encontram num único bombom! É preciso ir devagar como em tudo que tem a ver com prazer. É grosseria enfiar o bombom inteiro na boca e comê-lo como porco. Primeiro é o prazer de tirar-lhe a roupa. A carne mulata vai se mostrando aos poucos, sugerindo... Depois vem o perfume, que atiça as glândulas salivares a secretarem seus sucos. A seguir, as delícias do gosto. Os dentes entram carinhosamente na carne macia que vão se abrindo, a ponta da língua testando a cereja guardada na concavidade escura cheia de licor. Mais uma mordidinha e o licor escorre, e a língua tem que trabalhar depressa para não perder nada... O gosto deve ficar rodando na boca, movido pela língua, misturando-se com nossos fluidos, excitando as papilas gustativas. Mas, depois de algumas rodada, o prazer do gosto pede uma realização maior. O gosto não é o bastante. Fosse bastante, bastaria cuspir o bombom depois de esgotados os prazeres do gosto e não haveria o perigo de engordar. Mas não. O prazer do gosto exige um outro para se sentir completo – é preciso engolir. O bombom, transformado numa pasta líquida, abandona a boca, lugar do gosto, e vai escorregando, deslizando, penetrando o esôfago até descansar no estômago. Esse prazer nada tem a ver com o gosto. É puramente tátil, o prazer da plenitude – o bombom penetra, enche a gente.
Ah! Que coisa refinada e deliciosa, especialmente agora que os bombons suíços me foram proibidos por causa da diabetes. O que provavelmente, não é o seu caso. Sem sofrer de diabetes, você pode se entregar, ainda que por breves momentos, aos prazeres da gula. A gula é um demônio saboroso, o que a torna especialmente perigosa. Eu, diabético, posso ser tentado. Mas não caio na tentação. A gula jamais me pegará. Quero viver. Muitas virtudes nada mais não que transformações de nossos medos.
A psicanálise reconhece uma curiosa dança dos prazeres – eles são capazes de abandonar seus locais de origem e se alojar num outro, que não é naturalmente seu. Fiquei a pensar se a gula não é um desses casos, um deslocamento dos prazeres sexuais para a boca. Porque no prazer sexual acontece assim mesmo: não bastam os prazeres vestibulares, é preciso penetrar. Serão boca, esôfago e estômago substitutos para os órgãos sexuais femininos?
Uma coisa é certa: é mais fácil ter prazer com a boca que ter prazer sexual. Os prazeres da gula estão sob controle de atos voluntários. Minha vontade domina todas as partes do ato de comer. Mas os prazeres sexuais são mais complicados. Aí a decisão cerebral não manda. Não acontece de você ter o bombom, querer comê-lo e não conseguir. Com sexo acontece. Que frustração! Que fome! Os prazeres do sexo podem levar à gravidez. Os prazeres da gula levam inevitavelmente à obesidade. A obesidade é uma gravidez sem esperança, que nunca vai parir, vai só crescer.
Prazer precisa de intermitência. Como no sexo. Depois do orgasmo, o corpo está satisfeito. É preciso esperar um tempo para que ele queira de novo. O prazer continuado deixa de ser prazer, transforma-se em dor. Pois é isso que o demônio da gula faz com quem se entrega a ela. Tudo começa com o prazer do bombom. Depois de muitos bombons, o corpo já não come mais pelo prazer dos bombons. O prazer já não está no gosto. Está no engolir.
O obeso não quer ser obeso. Tudo é complicado para ele – passar na borboleto do ônibus, sentar na poltrona do avião, amarrar os sapatos, comprar roupas, transar. Não gosta de se ver no espelho. Não gosta do jeito como os outros o olham. Sabe que a obesidade é feia, que faz mal à saúde, causa infarto, pressão alto, diabetes. Quer ser magro, elegante, bonito. Sabe que para ficar magro é preciso parar de comer.
Mas, lá pelas duas horas da madrugada, hora de solidão (os demônios amam as horas de solidão!), o demônio lhe fala sobre os bombons... Ele não está com fome. É o demônio que suplica, com voz chorosa: “Estou com vontade de comer uns bombons...”
Porém não há bombons no apartamento. Ele comeu todos enquanto via televisão. Pensa em se vestir e ir ao supermercado. Mas faz frio. Lembra-se então de que na cozinha há bolachas e leite condensado. Vai até aa cozinha, abre uma lata de leite condensado, lambuza as bolachas e vai devorando, enquanto o leite escorre pelos dedos. Mas ele não permite que o doce se perca – lambe os dedos, enfiando-os um a um na boca. Pena que os dedos não possam ser comidos... Ele não faz mais distinção entre bombons suíços e leite condensado com bolachas. Quem se entrega ao demônio da gula perde a capacidade de degustar. O prazer de degustar é substituído pelo prazer de se empanturrar.
Terminada a orgia da gula, alguns, como ato de penitência, se ajoelham contritamente diante do altar – a privada. Enfiam então o dedo na goela e vomitam o que comeram. É seu jeito de pedir perdão.
Rubem Alves
Sobre Demônios e Pecados
Ah! Que coisa refinada e deliciosa, especialmente agora que os bombons suíços me foram proibidos por causa da diabetes. O que provavelmente, não é o seu caso. Sem sofrer de diabetes, você pode se entregar, ainda que por breves momentos, aos prazeres da gula. A gula é um demônio saboroso, o que a torna especialmente perigosa. Eu, diabético, posso ser tentado. Mas não caio na tentação. A gula jamais me pegará. Quero viver. Muitas virtudes nada mais não que transformações de nossos medos.
A psicanálise reconhece uma curiosa dança dos prazeres – eles são capazes de abandonar seus locais de origem e se alojar num outro, que não é naturalmente seu. Fiquei a pensar se a gula não é um desses casos, um deslocamento dos prazeres sexuais para a boca. Porque no prazer sexual acontece assim mesmo: não bastam os prazeres vestibulares, é preciso penetrar. Serão boca, esôfago e estômago substitutos para os órgãos sexuais femininos?
Uma coisa é certa: é mais fácil ter prazer com a boca que ter prazer sexual. Os prazeres da gula estão sob controle de atos voluntários. Minha vontade domina todas as partes do ato de comer. Mas os prazeres sexuais são mais complicados. Aí a decisão cerebral não manda. Não acontece de você ter o bombom, querer comê-lo e não conseguir. Com sexo acontece. Que frustração! Que fome! Os prazeres do sexo podem levar à gravidez. Os prazeres da gula levam inevitavelmente à obesidade. A obesidade é uma gravidez sem esperança, que nunca vai parir, vai só crescer.
Prazer precisa de intermitência. Como no sexo. Depois do orgasmo, o corpo está satisfeito. É preciso esperar um tempo para que ele queira de novo. O prazer continuado deixa de ser prazer, transforma-se em dor. Pois é isso que o demônio da gula faz com quem se entrega a ela. Tudo começa com o prazer do bombom. Depois de muitos bombons, o corpo já não come mais pelo prazer dos bombons. O prazer já não está no gosto. Está no engolir.
O obeso não quer ser obeso. Tudo é complicado para ele – passar na borboleto do ônibus, sentar na poltrona do avião, amarrar os sapatos, comprar roupas, transar. Não gosta de se ver no espelho. Não gosta do jeito como os outros o olham. Sabe que a obesidade é feia, que faz mal à saúde, causa infarto, pressão alto, diabetes. Quer ser magro, elegante, bonito. Sabe que para ficar magro é preciso parar de comer.
Mas, lá pelas duas horas da madrugada, hora de solidão (os demônios amam as horas de solidão!), o demônio lhe fala sobre os bombons... Ele não está com fome. É o demônio que suplica, com voz chorosa: “Estou com vontade de comer uns bombons...”
Porém não há bombons no apartamento. Ele comeu todos enquanto via televisão. Pensa em se vestir e ir ao supermercado. Mas faz frio. Lembra-se então de que na cozinha há bolachas e leite condensado. Vai até aa cozinha, abre uma lata de leite condensado, lambuza as bolachas e vai devorando, enquanto o leite escorre pelos dedos. Mas ele não permite que o doce se perca – lambe os dedos, enfiando-os um a um na boca. Pena que os dedos não possam ser comidos... Ele não faz mais distinção entre bombons suíços e leite condensado com bolachas. Quem se entrega ao demônio da gula perde a capacidade de degustar. O prazer de degustar é substituído pelo prazer de se empanturrar.
Terminada a orgia da gula, alguns, como ato de penitência, se ajoelham contritamente diante do altar – a privada. Enfiam então o dedo na goela e vomitam o que comeram. É seu jeito de pedir perdão.
Rubem Alves
Sobre Demônios e Pecados
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
SILÊNCIO

O silêncio é o espaço onde as palavras nascem e começam a se mover.
Por vezes, as palavras porque as dizemos.
Dependem de nossa vontade de pensar, de falar, de escrever: pássaros engaiolados.
Mas no silêncio ocorre uma metamorfose.
As palavras se tornam selvagens, livres.
Elas tomam a iniciativa.
E só nos resta ver e ouvir.
Elas vêm como emissárias de um outro mundo,
Um mundo que não havíamos visitado antes.
Não, talvez o tenhamos visitado.
Talvez tenhamos nascido nele.
Mas foi esquecido quando o brilho dos reflexos nos fez esquecer nossas origens.
Cada poema é um testemunho desse mundo perdido.
Rubem Alves
Do universo à jabuticaba
Por vezes, as palavras porque as dizemos.
Dependem de nossa vontade de pensar, de falar, de escrever: pássaros engaiolados.
Mas no silêncio ocorre uma metamorfose.
As palavras se tornam selvagens, livres.
Elas tomam a iniciativa.
E só nos resta ver e ouvir.
Elas vêm como emissárias de um outro mundo,
Um mundo que não havíamos visitado antes.
Não, talvez o tenhamos visitado.
Talvez tenhamos nascido nele.
Mas foi esquecido quando o brilho dos reflexos nos fez esquecer nossas origens.
Cada poema é um testemunho desse mundo perdido.
Rubem Alves
Do universo à jabuticaba
Palavras

A todo o momento somos bombardeados com palavras.
Elas são muitas e esbarram em nós apressadas,
A maioria sem pedir licença.
Estas palavras são de diferentes tipos e diferentes sons,
Sem falar nas imagens que traduzimos e expressamos em palavras.
Todos nós portamos palavras enunciando-as ao mundo.
Que palavras são estas que falo?
Como falo?
Hoje digo que as palavras que porto destroem,
Minhas palavras inquietam, sacodem, desorganizam, bagunçam, implodem!
Pois são palavras que nasceram do silêncio,
Do escuro que desvendou meus verdadeiros desejos.
Por isso, as palavras subvertem, transgridem...
Às vezes precisam machucar para curar,
Para conscientizar.
As palavras sempre exigem uma resposta, uma tomada de posição.
As palavras são os alicerces de toda construção,
Pois são as palavras que tudo criam e que tudo transformam.
Estou prenhe de palavras,
E pronta para liberá-las ao mundo.
Palavras não são apenas palavras, jogadas ao vento...
Elas são muitas e esbarram em nós apressadas,
A maioria sem pedir licença.
Estas palavras são de diferentes tipos e diferentes sons,
Sem falar nas imagens que traduzimos e expressamos em palavras.
Todos nós portamos palavras enunciando-as ao mundo.
Que palavras são estas que falo?
Como falo?
Hoje digo que as palavras que porto destroem,
Minhas palavras inquietam, sacodem, desorganizam, bagunçam, implodem!
Pois são palavras que nasceram do silêncio,
Do escuro que desvendou meus verdadeiros desejos.
Por isso, as palavras subvertem, transgridem...
Às vezes precisam machucar para curar,
Para conscientizar.
As palavras sempre exigem uma resposta, uma tomada de posição.
As palavras são os alicerces de toda construção,
Pois são as palavras que tudo criam e que tudo transformam.
Estou prenhe de palavras,
E pronta para liberá-las ao mundo.
Palavras não são apenas palavras, jogadas ao vento...
Palavras são a própria vida.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Sussurros da madrugada

Tenho medo, muito medo.
Por isso, aperto tua mão com tanta força.
Mas sua presença não faz o medo partir,
Nem o desconforto desaparecer.
Eu não sei mais o que fazer...
Mas quando eu começo a ler as entrelinhas,
E paro de te fazer perguntas que você não entende,
A verdade começa a aparecer.
Olhar no espelho é embaraçoso,
E na maioria das vezes,
O que acreditamos que é nossa imagem real,
Na verdade é uma figura distorcida que vimos num espelho embaçado.
Quantas vezes interroguei a quem não devia interrogar,
E não interroguei quem deveria.
Foi então que descobri que sou humana,
E o quanto me enganei.
Eu acho que estava enganada a respeito de tudo...
Por isso, aperto tua mão com tanta força.
Mas sua presença não faz o medo partir,
Nem o desconforto desaparecer.
Eu não sei mais o que fazer...
Mas quando eu começo a ler as entrelinhas,
E paro de te fazer perguntas que você não entende,
A verdade começa a aparecer.
Olhar no espelho é embaraçoso,
E na maioria das vezes,
O que acreditamos que é nossa imagem real,
Na verdade é uma figura distorcida que vimos num espelho embaçado.
Quantas vezes interroguei a quem não devia interrogar,
E não interroguei quem deveria.
Foi então que descobri que sou humana,
E o quanto me enganei.
Eu acho que estava enganada a respeito de tudo...
Enganada sobre mim, sobre os outros, sobre a vida,
Quando fui tomada pela incerteza, me senti muito ameaçada.
O chão desapareceu de debaixo dos meus pés,
Quando fui tomada pela incerteza, me senti muito ameaçada.
O chão desapareceu de debaixo dos meus pés,
E eu comecei a tremer!
A insegurança apareceu tentando preencher o vazio deixado pelas certezas,
Que desabaram...
As fantasias aprisionam,
Mas dizer a elas que não são mais necessárias não é uma tarefa das mais agradáveis.
É como abandonar um vício qualquer,
Há sempre a crise de abstinência.
O vazio berrando para ser preenchido,
Não se ouve mais nada a não ser o corpo gritando,
Dando ordens para ser amarrado outra vez.
Apesar de viver tudo isso,
Creio que depois de uma noite difícil sempre vem uma bela manhã,
Trazendo consigo inúmeras possibilidades de um lindo recomeço.
Vou enumerar apenas algumas delas: consciência, verdade, liberdade, amadurecimento, felicidade...
A insegurança apareceu tentando preencher o vazio deixado pelas certezas,
Que desabaram...
As fantasias aprisionam,
Mas dizer a elas que não são mais necessárias não é uma tarefa das mais agradáveis.
É como abandonar um vício qualquer,
Há sempre a crise de abstinência.
O vazio berrando para ser preenchido,
Não se ouve mais nada a não ser o corpo gritando,
Dando ordens para ser amarrado outra vez.
Apesar de viver tudo isso,
Creio que depois de uma noite difícil sempre vem uma bela manhã,
Trazendo consigo inúmeras possibilidades de um lindo recomeço.
Vou enumerar apenas algumas delas: consciência, verdade, liberdade, amadurecimento, felicidade...
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