Este texto é um manifesto escrito e subscrito por brancos que compõem a comunidade escolar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele é uma retumbante admissão pública, por nossa parte, de que vivemos em um contexto de exclusão estrutural de negros e indígenas dos benefícios e espaços de cidadania produzidos por nossa sociedade e onde, ao mesmo tempo, é produzida uma teia de privilégios a nós brancos, que torna completamente desigual e desumana nossa convivência. Somos opressores, exploradores e privilegiados mesmo quando não queremos ser. O racismo não é um "problema dos negros", mas também dos brancos. É pelo reconhecimento destes privilégios que marcam toda nossa existência, mesmo que nós brancos não os enxerguemos cotidianamente, que exigimos a imediata aprovação de Ações afirmativas de Reparação às populações negras e indígenas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
No Brasil vivemos em um estado de racismo estrutural. Já é comprovado que raça é um conceito biologicamente inadmissível, só existe raça humana e pronto. Mas socialmente, nos vemos e construímos nossa realidade diária em cima de concepções raciais. Portanto, raça é uma realidade sociológica. Não é uma questão de que eu ou você sejamos pessoalmente preconceituosos. Mas é só olhar para qualquer pesquisa que veremos como existe um processo de atração e exclusão de pessoas para estes ou aqueles espaços sociais, dependendo de sua cor. Não é à toa que não temos quase médicos negros, embora eles sejam a maioria nas filas dos postos de saúde; que quase não vemos jornalistas negros, mas estes são expostos diariamente em páginas policiais; que não temos quase professores negros, especialmente em posições com melhores salários, e vemos alunos negros apenas em escolas públicas enquanto, na universidade pública quase só encontramos brancos.
A situação dos indígenas não é diferente, quando eles ainda sofrem lutando pelo direito mínimo de ter suas terras e aldeias, mesmo isso lhes é surrupiado pelos brancos. Vamos parar com esta falácia de dizer que não aceitamos cotas raciais na universidade, porque não queremos ser racistas: se vivemos no Brasil, se fomos criados nesta cultura, se construímos nossas vidas dentro deste conjunto de relações onde a raça é um elemento determinante, somos todos racistas! Não fujamos da realidade. Não usemos a falsa desculpa de que não queremos criar divisões entre raças no Brasil. Nossa sociedade poderia ser mais dividida racialmente do que já é hoje?
O estudo de Marcelo Paixão intitulado "Racismo, pobreza e violência", compara o IDH dos brancos e dos negros dentro do Brasil. O IDH tenta medir a qualidade de vida das populações, combinando os três fatores que, por abranger, cada qual, uma imensa variedade de outros, seriam os essenciais para a medição: renda por habitante, escolaridade e expectativa de vida. Na última versão do IDH, de 2002, o Brasil ocupa o 73º lugar entre 173 países avaliados, mesmo possuindo todas as riquezas nacionais e sendo o 11º país mais desenvolvido economicamente no mundo. Porém, entre 1992 e 2001, enquanto em geral o número de pobres ficou 5 milhões menor, o dos pretos e pardos ficou 500 mil maior. [Consideram-se brancos 53,7% dos brasileiros; pretos ou pardos, 44,7%, que chamaremos, hora em diante de negros]. O estudo mostra que Brasil dos brancos seria, na média o 44º do mundo em matéria de desenvolvimento humano, ao passo que o Brasil dos negros estaria no 104º lugar!!!
Nada disso é novidade, porém, para quem aceita viver com os olhos minimamente abertos. Temos que reconhecer que vivemos num sistema estruturalmente racista, que se reproduz em cima de mecanismos constantes de exclusão e exploração dos negros e de privilégios naturalizados aos brancos. Em um sistema racista, pessoas brancas se beneficiam do racismo, mesmo que não tenham intenções de serem racistas. Nós brancos não precisamos enxergar o racismo estrutural porque não sofremos diariamente diversos processos de exclusão e tratamento negativamente diferencial por causa de nossa raça. Nossa raça (e seus privilégios) são tornados invisíveis dia-a-dia. Este sistema de privilégios invisíveis a nós brancos é que nos põe em vantagens a todo instante, por toda nossa vida, em todas as situações, e que destroça qualquer tentativa de pensarmos que estamos onde estamos apenas por méritos pessoais. Que mérito puro pode ter qualquer branco de estar no lugar confortável em que se encontra hoje, mesmo que tenha saído da pobreza, dentro de um sistema que lhe privilegiou apenas por ser branco, ao mesmo tempo em que prejudicou outros tantos apenas por serem negros?
Vamos apresentar uma breve listinha de circunstâncias em nossas vidas que expõem nossos privilégios de brancos e que, embora não percebêssemos, embora os víssemos apenas como relações naturais para nós, por sermos pessoas normais e "de bem", foram decisivas para nos trazer onde estamos (e por não serem vivenciados também por negros e indígenas, seu resultado é fazer com que seja tão desproporcional o número destas populações dentro da UFRGS, por exemplo): 1) Sempre pude estar seguro de que a cor da minha pele não faria as pessoas me tratarem diferentemente na escola, no ônibus, nas lojas, etc; 2) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca os prejudicou em termos das busca ou da manutenção de um emprego; 3) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca fez com que seu salário fosse mais baixo que o de outra pessoa cumprindo sua mesma função; 4) Posso ligar a televisão e ver pessoas de minha raça em grande número e muitas em posições sociais confortáveis e que me dão perspectivas para o futuro; 5) Na escola, aprendi diversas coisas inventadas, descobertas, grandes heróis e grandes obras feitas por pessoas da minha raça; 6) A maior parte do tempo, na escola, estudei sobre a história dos meus antepassados e, por saber de onde eu vim, tenho mais segurança de quem sou e pra onde posso ir; 7) Nunca precisei ouvir que no meu estado não existiam pessoas da minha raça; 8) Nunca tive medo de ser abordado por um policial motivado especialmente pela cor da minha pele; 9) Já fiz coisas erradas e mesmo ilegais por necessidade, e nunca tive medo que minha raça fosse um elemento que reforçasse minha possível condenação; 10) Posso ir numa livraria e perder a conta de quantos escritores de minha raça posso encontrar, retratando minha realidade, assim como em qualquer loja e encontrar diversos produtos que respeitam minha cultura; 11) Nunca sofri com brincadeiras ofensivas por causa de minha raça; 12) Meus pais nunca precisaram me atender para aliviar meu sofrimento por este tipo de "brincadeira"; 13) Sempre tive professores da minha raça; 14) Nunca me senti minoria em termos da minha raça, em nenhuma situação; 15) Todas as pessoas bem sucedidas que eu conheci até hoje eram da mesma raça que eu; 16) Posso falar com a boca cheia e ficar tranqüilo de que ninguém relacionará isso com minha raça; 17) Posso fazer o que eu quiser, errar o quanto quiser, falar o que eu quiser, sem que ninguém ligue isso a minha raça; 18) Nunca, em alguma conversa em grupo, fui forçado a falar em nome de minha raça, carregando nas costas o peso de representar 45% da população brasileira; 19) Sempre pude abrir revistas e jornais, desde minha infância, e estar seguro de ver muitas pessoas parecidas comigo; 20) Sempre estive seguro de que a cor da minha pele não seria um elemento prejudicial a mim em nenhuma entrevista para emprego ou estágio; 21) Se eu declarar que "o que está em jogo é uma questão racial" não serei acusado de estar tentando defender meu interesse pessoal; 22) Se eu precisar de algum tratamento medico tenho convicção de que a cor da minha pele não fará com que meu tratamento sofra dificuldades; 23) Posso fazer minhas atividades seguro de que não experienciarei sentimentos de rejeição a minha raça.
Esta realidade destroça meu mito pessoal de meritocracia. Minha vida não foi o que eu sozinho fiz dela. Muitas portas me foram abertas baseadas na minha raça, assim como fechadas a outras pessoas. A opção de falar ou não em privilégios dos brancos já é um privilegio de brancos. Se o racismo, e os privilégios dos brancos são estruturais, as ações contra o racismo devem ser também estruturais. Racismo não é preconceito: racismo é preconceito mais poder. Se não forçarmos mudanças nas relações e posições de poder em nossa sociedade, estaremos reproduzindo o racismo que recebemos. E agora chegou a hora de a universidade dizer publicamente: vai ou não vai "cortar na própria pele" o racismo que até hoje ajudou a reproduzir, estabelecendo imediatamente Cotas no seu próximo vestibular? Se mantivermos o vestibular "cego às desigualdades raciais" estaremos, na verdade, mantendo nossos olhos fechados para as desigualdades raciais que nós mesmos ajudamos a reproduzir sociedade afora.
Nós, brancos da universidade que assinamos esta carta já nos posicionamos: exigimos cortar em nossa própria pele os privilégios que até hoje nos sustentaram. Cotas na UFRGS já!
Seja Bem Vindo ao Blog Transgredindo a Ordem!!!
Este espaço foi criado porque sou um ser social e não há sentido na expressão que não é compartilhada para agraciar as pessoas seja pela identificação, seja pela orientação, pela inspiração ou pela contemplação.
Sou uma pessoa que escreve porque sente antes mesmo de pensar, e através da escrita procura elaborar suas experiências humanas com toda intensidade que ser humano exige... Sentir, dar-me conta do que sinto e expressar por si só é bem mais do que apenas sobreviver!!!
Sou uma pessoa que escreve porque sente antes mesmo de pensar, e através da escrita procura elaborar suas experiências humanas com toda intensidade que ser humano exige... Sentir, dar-me conta do que sinto e expressar por si só é bem mais do que apenas sobreviver!!!
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Adestramento Cristão

Ariovaldo Jr
Crente é um bicho estranho. Você grita “AMÉM?” e ele responde gritando o mesmo. Se perguntar pela segunda vez, ele responderá mais alto. Se no meio do louvor você gritar “pule na presença do Senhorrrrrrrr”, então eles pulam. Se você dançar de modo estranho, verá correspondência imediata nas pessoas.Sua linguagem é facilmente influenciável por jargões. Basta pegar qualquer expressão bíblica cujo significado seja obscuro para a maioria, e pronto! Também colam as expressões inventadas que possuem aparência de espiritual, como por exemplo “ato profético”. Difícil de crer que nem existe esta expressão na Bíblia né?Facilmente também estereotipamos outras coisas que fazem do crente um ser quase alienígena: os lugares que frequenta, o conteúdo de suas conversas e a aversão às coisas “do mundo”.Pena quem os crentes não são condicionados a obedecer a todo tipo de “comando”. Parece que o adestramento a que foram submetidos possui limitações. Nem todos aceitam sugestionamentos que os levem a renunciar a seus interesses; ou dividirem suas posses com os necessitados; ou mesmo disponibilizar tempo para aqueles que estão abandonados em asilos, orfanatos e nas ruas.Ah… antes que eu me esqueça, quero deixar claro que amo os crentes. E exatamente por ser um deles é que me incomodo tanto com estas coisas incompreensíveis que aceitamos passivamente em nossa conduta.Posso ouvir (ler) um “Amém” nos comentários?! rs
sexta-feira, 24 de setembro de 2010
Tudo junto e misturado

Há quem diga que no Brasil não existe preconceito de cunho racial, afinal somos todos misturados e por isso convivemos pacificamente em meio nossas diferenças. No meu Brasil não há convivência pacífica, nem a inexistência de preconceito racial.
Não estou com isso querendo negar a existência de uma forte miscigenação existente em nosso país, a miscigenação é um fato aqui no Brasil, assim como em outros, muitos outros países, estou dizendo que a forma com que ás vezes lidamos com a miscigenação que é controvertida. Somos brasileiros sim, mas como eu mesma ouvi nesta semana, no seio de nosso país há várias nações representadas e o que nos ensinaram no afã de formar uma identidade legitimamente brasileira foi apagar as diferenças existentes entre nós, e pior, hierarquizar estas diferenças. Inicialmente, o Brasil foi constituído pelos variados grupos indígenas que já habitavam neste lugar quando os portugueses chegaram, dos próprios portugueses, e através do tráfico negreiro foi a vez dos africanos, também oriundos de diversos locais do imenso continente africano. Isso sem falar dos alemães, dos japoneses, dos italianos que foram chegando depois... O que estou dizendo com isso? Onde há diferença, há conflito, há choques e a forma como as elites brasileiras arranjaram para minimizar este conflito, foi tentar amalgamar todo este povo a fim de criar uma identidade 100% nacional. A falácia de uma identidade brasileira pretenciosamente morena ou mestiça não dá conta dos conflitos interétnicos existentes em nossa terra, pois, mesmo brasileiros, mesmo habitando um mesmo espaço e falando uma mesma língua, as diferenças persistem e a forma de hierarquizá-las também. Posso ver isso a todo instante, na escola, na igreja, na rua, como hoje mesmo quando presenciei um fato que me levou a escrever sobre isso.
Tomei um ônibus para chegar ao trabalho, este ônibus estava cheio, claro! Quem toma um ônibus às 06:30 da manhã não pode esperar outra coisa... Eu estava de pé bem no fundo do ônibus quando vi um homem de mais ou menos 40 anos se levantar daqueles últimos bancos do ônibus, ele passou por mim e logo depois começou a baixaria: uma mulher um pouco mais velha que o homem, alegou que este pisou em seu pé, ele respondeu dizendo que não tinha sido por querer, pois o ônibus estava cheio. (Vamos combinar que os cariocas da zona norte ultimamente estão bem mal-educados, não cumprimentam as pessoas, não pedem licença para chegar ou sair dos lugares os ônibus, para passar entre as pessoas e quando esbarram em alguém não pedem desculpas mesmo!). E a mulher queria briga mesmo, pois mesmo sob os protestos do cara dizendo que foi sem-querer, ela continuou discutindo com o cara! O homem desceu no jacaré e ela então disse: “Só podia mesmo descer aí, oh no Jacaré. É um bandido!”. São nestas situações de conflito que o preconceito e o racismo aparecem, como apareceu claramente nas palavras daquela mulher, ela teve muito cuidado ao não chamar o cara com suas palavras, de negro safado, negro fedido ou negro qualquer outra coisa, mas subliminarmente o preconceito racial estava evidente, o golpe desferido por aquela senhora de pele clara foi muito maior do que um pisão no pé. Ser negro no Brasil, no Rio de janeiro, infelizmente ainda está associado a ser favelado e bandido. Mudar o nome de favela para comunidade não mudou o sentimento que nutrimos por estes lugares, por estes bolsões de miséria onde a presença da população negra é bem maior comparada a outros grupos. Lembrei-me de um outro fato acontecido no início da semana passada quando a polícia covardemente matou um jovem (negro, diga-se de passagem) trabalhador numa operação num dos morros da cidade, alegando que este jovem era bandido. Parece que há um consenso em julgar estas pessoas que moram nas comunidades como bandidos, vagabundos ou qualquer outra coisa que justifique matá-los através da nossa indiferença, da ausência de políticas que realmente deixem de lado o apelo populista e tratem a desigualdade na raiz.
A desigualdade, o preconceito começa no nosso olhar. Ele está presente permeando todas as nossas relações, ele contamina nosso olhar para o negro, para a população indígena, para os nordestinos e para todos os outros grupos desvalorizados socialmente. Ainda permanece em nosso imaginário aquela pretensão de sermos a imagem e semelhança de nossos “criadores” europeus. Ainda não caiu a ficha de que os criadores tão reverenciados são na verdade colonizadores e que é preciso nos aceitar tal qual como somos descolonizando nosso olhar. Juntos e misturados sim! Mas diferentes e não desiguais e porque diferentes, merecemos igual respeito, igual dignidade, porque somos todos brasileiros, somos todos humanos.
Não estou com isso querendo negar a existência de uma forte miscigenação existente em nosso país, a miscigenação é um fato aqui no Brasil, assim como em outros, muitos outros países, estou dizendo que a forma com que ás vezes lidamos com a miscigenação que é controvertida. Somos brasileiros sim, mas como eu mesma ouvi nesta semana, no seio de nosso país há várias nações representadas e o que nos ensinaram no afã de formar uma identidade legitimamente brasileira foi apagar as diferenças existentes entre nós, e pior, hierarquizar estas diferenças. Inicialmente, o Brasil foi constituído pelos variados grupos indígenas que já habitavam neste lugar quando os portugueses chegaram, dos próprios portugueses, e através do tráfico negreiro foi a vez dos africanos, também oriundos de diversos locais do imenso continente africano. Isso sem falar dos alemães, dos japoneses, dos italianos que foram chegando depois... O que estou dizendo com isso? Onde há diferença, há conflito, há choques e a forma como as elites brasileiras arranjaram para minimizar este conflito, foi tentar amalgamar todo este povo a fim de criar uma identidade 100% nacional. A falácia de uma identidade brasileira pretenciosamente morena ou mestiça não dá conta dos conflitos interétnicos existentes em nossa terra, pois, mesmo brasileiros, mesmo habitando um mesmo espaço e falando uma mesma língua, as diferenças persistem e a forma de hierarquizá-las também. Posso ver isso a todo instante, na escola, na igreja, na rua, como hoje mesmo quando presenciei um fato que me levou a escrever sobre isso.
Tomei um ônibus para chegar ao trabalho, este ônibus estava cheio, claro! Quem toma um ônibus às 06:30 da manhã não pode esperar outra coisa... Eu estava de pé bem no fundo do ônibus quando vi um homem de mais ou menos 40 anos se levantar daqueles últimos bancos do ônibus, ele passou por mim e logo depois começou a baixaria: uma mulher um pouco mais velha que o homem, alegou que este pisou em seu pé, ele respondeu dizendo que não tinha sido por querer, pois o ônibus estava cheio. (Vamos combinar que os cariocas da zona norte ultimamente estão bem mal-educados, não cumprimentam as pessoas, não pedem licença para chegar ou sair dos lugares os ônibus, para passar entre as pessoas e quando esbarram em alguém não pedem desculpas mesmo!). E a mulher queria briga mesmo, pois mesmo sob os protestos do cara dizendo que foi sem-querer, ela continuou discutindo com o cara! O homem desceu no jacaré e ela então disse: “Só podia mesmo descer aí, oh no Jacaré. É um bandido!”. São nestas situações de conflito que o preconceito e o racismo aparecem, como apareceu claramente nas palavras daquela mulher, ela teve muito cuidado ao não chamar o cara com suas palavras, de negro safado, negro fedido ou negro qualquer outra coisa, mas subliminarmente o preconceito racial estava evidente, o golpe desferido por aquela senhora de pele clara foi muito maior do que um pisão no pé. Ser negro no Brasil, no Rio de janeiro, infelizmente ainda está associado a ser favelado e bandido. Mudar o nome de favela para comunidade não mudou o sentimento que nutrimos por estes lugares, por estes bolsões de miséria onde a presença da população negra é bem maior comparada a outros grupos. Lembrei-me de um outro fato acontecido no início da semana passada quando a polícia covardemente matou um jovem (negro, diga-se de passagem) trabalhador numa operação num dos morros da cidade, alegando que este jovem era bandido. Parece que há um consenso em julgar estas pessoas que moram nas comunidades como bandidos, vagabundos ou qualquer outra coisa que justifique matá-los através da nossa indiferença, da ausência de políticas que realmente deixem de lado o apelo populista e tratem a desigualdade na raiz.
A desigualdade, o preconceito começa no nosso olhar. Ele está presente permeando todas as nossas relações, ele contamina nosso olhar para o negro, para a população indígena, para os nordestinos e para todos os outros grupos desvalorizados socialmente. Ainda permanece em nosso imaginário aquela pretensão de sermos a imagem e semelhança de nossos “criadores” europeus. Ainda não caiu a ficha de que os criadores tão reverenciados são na verdade colonizadores e que é preciso nos aceitar tal qual como somos descolonizando nosso olhar. Juntos e misturados sim! Mas diferentes e não desiguais e porque diferentes, merecemos igual respeito, igual dignidade, porque somos todos brasileiros, somos todos humanos.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
Por que sou Educadora I

Ressignificar uma história é contar esta mesma história de outras maneiras.
Aquele que quer ensinar deve antes de tudo saber aprender.
Aprendi a gostar de histórias com a minha avó Margarida... Quando penso em histórias, em contá-las ou em ouvi-las é nela em quem eu penso. Minha avó era uma exímia contadora de histórias e eu adorava sentar aos seus pés e ouvi-la falar. Ela não contava as histórias clássicas de chapeuzinho vermelho ou de outros livros infantis, mas contava as histórias da sua própria vida. Ela falava de sua meninice, da separação dos seus pais, da admiração que nutria pela sua mãe, minha bisavó que nunca cheguei a conhecer... Falava dos seus dois noivados e de que nunca havia imaginado se casar com um homem branco. Porém, as histórias que mais me fascinavam eram as da sua conversão ao cristianismo e das suas experiências com Deus.
Cada vez que ouvia minha avó contando suas histórias, eu decidia aqui dentro de mim que seria como ela, uma contadora de histórias... Havia histórias que ela contava repetidas vezes, eram os mesmos sonhos, as mesmas percepções, os mesmos personagens, mas eu não me cansava de escutar. Muitas características que possuo, herdei dela tais como, a sensibilidade para questões espirituais, o temperamento melancólico, a necessidade de quietude e recolhimento e o desejo de transmitir valores através das minhas histórias.
Foi aos pés de Margarida que nasceu a educadora que sou hoje.
Aquele que quer ensinar deve antes de tudo saber aprender.
Aprendi a gostar de histórias com a minha avó Margarida... Quando penso em histórias, em contá-las ou em ouvi-las é nela em quem eu penso. Minha avó era uma exímia contadora de histórias e eu adorava sentar aos seus pés e ouvi-la falar. Ela não contava as histórias clássicas de chapeuzinho vermelho ou de outros livros infantis, mas contava as histórias da sua própria vida. Ela falava de sua meninice, da separação dos seus pais, da admiração que nutria pela sua mãe, minha bisavó que nunca cheguei a conhecer... Falava dos seus dois noivados e de que nunca havia imaginado se casar com um homem branco. Porém, as histórias que mais me fascinavam eram as da sua conversão ao cristianismo e das suas experiências com Deus.
Cada vez que ouvia minha avó contando suas histórias, eu decidia aqui dentro de mim que seria como ela, uma contadora de histórias... Havia histórias que ela contava repetidas vezes, eram os mesmos sonhos, as mesmas percepções, os mesmos personagens, mas eu não me cansava de escutar. Muitas características que possuo, herdei dela tais como, a sensibilidade para questões espirituais, o temperamento melancólico, a necessidade de quietude e recolhimento e o desejo de transmitir valores através das minhas histórias.
Foi aos pés de Margarida que nasceu a educadora que sou hoje.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
Escolhas II

Depois de uma noite bem dormida ou não, o que temos que fazer?
Escolhas...
Ser humano é ser capaz de escolher.
E escolher é uma questão de poder .
Legal, né?!
Nada disso!
Toda escolha é dramática em maior ou menor grau.
Até escolher as coisas relativas ao domínio do prazer como o que vamos comer,
Quando comer são complicadas.
Lembro-me de uma reportagem que li no início desta semana,
Que falava de uma mãe inglesa que teve que escolher entre dois filhos.
Um acidente, dois filhos e apenas uma chance de salvar apenas um deles...
Há escolhas urgentes e necessárias que partem para sempre nossos corações,
Isso me leva a pensar nas conseqüências das escolhas que fazemos.
Algumas delas tem conseqüências irreversíveis porque existe um tempo chamado passado e uma vez passado, não podemos mais voltar atrás,
Mas outras conseqüências se revelam mais flexíveis ...
Por tudo isso, escolher é angustiante...
Dentre várias possibilidades, só podemos ficar com uma,
E quando optamos por uma dentre todas as possibilidades,
Matamos todas as outras.
Como conviver com isso?!
Este é um dilema demasiadamente humano!
Fugir ou lutar?
Calar ou falar?
Sorrir ou Chorar?
Odiar ou Amar?
Fechar ou Abrir?
Adoçar ou Amargar?
Fritar ou Ensopar?
Esconder ou Revelar?
Saber ou Ignorar?
Quanto peso em nossas costas,
Que ninguém há de retirar, ninguém!
Muitas vezes desejamos ter um outro que escolha por nós.
É a saudade que temos da infância onde os pais decidiam nosso destino,
E então muitos inconformados pela expulsão do paraíso da infância,
Se refugiam em líderes religiosos, gurus, chefes, ou em qualquer outro que decida por eles.
Permitir que outros escolham por nós também é uma escolha.
Em dados momentos são escolhas a cegueira intelectual e a emocional.
Em muitos casos ter limites não é uma escolha,
Mas a forma como lidaremos com eles sim.
Entender que a capacidade de escolher reside em nós mesmos,
É algo que se adquire com a maturidade.
Muitas vezes não somos capazes de escolher e escolher bem,
Porque desconhecemos nossas motivações mais íntimas,
Perdemos o poder de escolher quando o inconsciente nos comanda.
Outra interface da escolha é que ninguém escolhe só para si,
Apesar de única e intransferível,
Nossas escolhas sempre afetam a vida daqueles que estão ao nosso redor,
Pais, filhos, irmãos, colegas de trabalho, vizinhos, amigos...
O que torna ainda maior nossa responsabilidade,
Pois é sempre importante lembrar que cada escolha é uma renúncia!
Hoje,
Eu escolhi estar como estou,
Ser como sou,
Produção social, claro,
Mas fruto de escolhas que fiz e faço neste instante.
Escolhas...
Ser humano é ser capaz de escolher.
E escolher é uma questão de poder .
Legal, né?!
Nada disso!
Toda escolha é dramática em maior ou menor grau.
Até escolher as coisas relativas ao domínio do prazer como o que vamos comer,
Quando comer são complicadas.
Lembro-me de uma reportagem que li no início desta semana,
Que falava de uma mãe inglesa que teve que escolher entre dois filhos.
Um acidente, dois filhos e apenas uma chance de salvar apenas um deles...
Há escolhas urgentes e necessárias que partem para sempre nossos corações,
Isso me leva a pensar nas conseqüências das escolhas que fazemos.
Algumas delas tem conseqüências irreversíveis porque existe um tempo chamado passado e uma vez passado, não podemos mais voltar atrás,
Mas outras conseqüências se revelam mais flexíveis ...
Por tudo isso, escolher é angustiante...
Dentre várias possibilidades, só podemos ficar com uma,
E quando optamos por uma dentre todas as possibilidades,
Matamos todas as outras.
Como conviver com isso?!
Este é um dilema demasiadamente humano!
Fugir ou lutar?
Calar ou falar?
Sorrir ou Chorar?
Odiar ou Amar?
Fechar ou Abrir?
Adoçar ou Amargar?
Fritar ou Ensopar?
Esconder ou Revelar?
Saber ou Ignorar?
Quanto peso em nossas costas,
Que ninguém há de retirar, ninguém!
Muitas vezes desejamos ter um outro que escolha por nós.
É a saudade que temos da infância onde os pais decidiam nosso destino,
E então muitos inconformados pela expulsão do paraíso da infância,
Se refugiam em líderes religiosos, gurus, chefes, ou em qualquer outro que decida por eles.
Permitir que outros escolham por nós também é uma escolha.
Em dados momentos são escolhas a cegueira intelectual e a emocional.
Em muitos casos ter limites não é uma escolha,
Mas a forma como lidaremos com eles sim.
Entender que a capacidade de escolher reside em nós mesmos,
É algo que se adquire com a maturidade.
Muitas vezes não somos capazes de escolher e escolher bem,
Porque desconhecemos nossas motivações mais íntimas,
Perdemos o poder de escolher quando o inconsciente nos comanda.
Outra interface da escolha é que ninguém escolhe só para si,
Apesar de única e intransferível,
Nossas escolhas sempre afetam a vida daqueles que estão ao nosso redor,
Pais, filhos, irmãos, colegas de trabalho, vizinhos, amigos...
O que torna ainda maior nossa responsabilidade,
Pois é sempre importante lembrar que cada escolha é uma renúncia!
Hoje,
Eu escolhi estar como estou,
Ser como sou,
Produção social, claro,
Mas fruto de escolhas que fiz e faço neste instante.
quinta-feira, 9 de setembro de 2010
Ausculta

Eu estendi minha mão tentando te tocar,
Mas você passou por mim e não viu.
Eu me esforcei lutando por seu amor,
Mas você não entendeu.
Eu tentei alcançar,
Mas não consegui segurar.
E você nem deu atenção.
Não conseguir o que você queria,
Destruiu meu coração.
E depois de tudo isso,
Vi-me tendo que sozinha levantar-me do chão.
Uma casa vazia, fria, sem mobília...
Não era isso que você queria,
Muito menos eu.
Mas agora não vou abrir a portar para te deixar entrar.
O que eu quero é me vingar!
Vou fazer você chorar como chorei,
Amargar como amarguei,
E não me culpe por essa solidão,
Por favor, não me envolva em sua desmedida confusão !
Só agora percebo que há uma camada branca em teus olhos,
Que te impede de ver qualquer coisa...
Não consegues olhar no espelho e jamais enxergou qualquer outro.
Por isso, vou soltar o que nunca consegui segurar...
Minhas mãos tentaram esconder o buraco que transpassava teu peito,
Mas elas eram pequenas demais...
Então, não insista me pedindo para te fazer sorrir,
Porque isso é pesado demais para mim...
Ainda assim sou capaz de resolver minhas próprias questões.
Quando percebo que meu sorriso é mais largo que o seu,
Ainda me dói, por pensar que há um tempo atrás estaria disposta a me sacrificar por você.
Mas isso não é amor,
Isso não é viver,
É sobreviver às custas de uma fantasia suicida.
Para vivermos bem, cada qual em seu lugar,
Há de se cortar, dividir, separar as bagagens.
Colocar de lados distintos o que me pertence e o que pertence só a você.
Fazendo assim, acabaremos bem!
Mas você passou por mim e não viu.
Eu me esforcei lutando por seu amor,
Mas você não entendeu.
Eu tentei alcançar,
Mas não consegui segurar.
E você nem deu atenção.
Não conseguir o que você queria,
Destruiu meu coração.
E depois de tudo isso,
Vi-me tendo que sozinha levantar-me do chão.
Uma casa vazia, fria, sem mobília...
Não era isso que você queria,
Muito menos eu.
Mas agora não vou abrir a portar para te deixar entrar.
O que eu quero é me vingar!
Vou fazer você chorar como chorei,
Amargar como amarguei,
E não me culpe por essa solidão,
Por favor, não me envolva em sua desmedida confusão !
Só agora percebo que há uma camada branca em teus olhos,
Que te impede de ver qualquer coisa...
Não consegues olhar no espelho e jamais enxergou qualquer outro.
Por isso, vou soltar o que nunca consegui segurar...
Minhas mãos tentaram esconder o buraco que transpassava teu peito,
Mas elas eram pequenas demais...
Então, não insista me pedindo para te fazer sorrir,
Porque isso é pesado demais para mim...
Ainda assim sou capaz de resolver minhas próprias questões.
Quando percebo que meu sorriso é mais largo que o seu,
Ainda me dói, por pensar que há um tempo atrás estaria disposta a me sacrificar por você.
Mas isso não é amor,
Isso não é viver,
É sobreviver às custas de uma fantasia suicida.
Para vivermos bem, cada qual em seu lugar,
Há de se cortar, dividir, separar as bagagens.
Colocar de lados distintos o que me pertence e o que pertence só a você.
Fazendo assim, acabaremos bem!
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Reflexões de uma narcisista em recuperação.
A transgressão me mantém sã, mas,
Há em mim uma ferida narcísica que é difícil curar...
Esta ferida me impede de ser livre, leve e espontânea.
E o outro me mostra uma verdade que meus olhos não podem suportar, mas,
Minha ferida está exposta e não posso deixar de olhar.
Dela explodem medo, ansiedade, insegurança,
Ódio, desprezo, intolerância, indiferença.
Todos protagonistas de um circo de horrores,
Que querem transformar minha trajetória numa infeliz estadia na casa fantasma.
Diante desse quadro, vejo que tudo o que é diferente de mim, isto é, o outro, que é amigo, parceiro, como um inimigo mortal a quem se precisa ferir para sobreviver, para se fortalecer.
O outro com sua espontaneidade e com seu poder de surpreender-me se torna uma ameaça.
Mas este mesmo outro já disse a que veio,
Ele está fora do controle, não tem script e não se sujeita a meus mandos e desmandos.
Eu acho que lá no fundo o que desejo é ser como ele...
Há em mim uma ferida narcísica que é difícil curar...
Esta ferida me impede de ser livre, leve e espontânea.
E o outro me mostra uma verdade que meus olhos não podem suportar, mas,
Minha ferida está exposta e não posso deixar de olhar.
Dela explodem medo, ansiedade, insegurança,
Ódio, desprezo, intolerância, indiferença.
Todos protagonistas de um circo de horrores,
Que querem transformar minha trajetória numa infeliz estadia na casa fantasma.
Diante desse quadro, vejo que tudo o que é diferente de mim, isto é, o outro, que é amigo, parceiro, como um inimigo mortal a quem se precisa ferir para sobreviver, para se fortalecer.
O outro com sua espontaneidade e com seu poder de surpreender-me se torna uma ameaça.
Mas este mesmo outro já disse a que veio,
Ele está fora do controle, não tem script e não se sujeita a meus mandos e desmandos.
Eu acho que lá no fundo o que desejo é ser como ele...
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